Cuidados PaliativosRevisado em 14 de setembro de 20269 min de leitura

O que são cuidados paliativos (e o que eles não são)

Cuidados paliativos não são o fim do tratamento: são o cuidado que coloca conforto, sentido e dignidade no centro, desde o diagnóstico de uma doença grave.

Compartilhar
Luz suave da manhã entrando por uma janela com cortina leve em um quarto tranquilo

"Cuidados paliativos" é uma das expressões que mais assustam quem recebe um diagnóstico grave na família. Ela costuma chegar acompanhada de uma dúvida difícil de formular em voz alta: isso quer dizer que não tem mais nada a fazer?

A resposta é o contrário. Há muito a fazer. O que muda é o foco — que deixa de ser apenas a doença e passa a ser a pessoa que a carrega.

Escrevo este texto para as famílias que chegam até aqui com essa dúvida no peito. Não é um texto técnico. É o que eu gostaria que alguém tivesse explicado, com calma, antes daquela conversa difícil no corredor do hospital.

De onde vem esse mal-entendido

A palavra "paliativo" carrega, no português cotidiano, um peso injusto. Chamamos de "paliativa" a solução improvisada, o remendo, aquilo que não resolve de verdade. Não é de estranhar que a expressão assuste.

A origem da palavra conta outra história. Vem do latim pallium, o manto que os viajantes usavam para se proteger do frio e da chuva. A imagem é essa: não se trata de desistir do caminho, mas de cobrir quem caminha, para que a travessia seja menos dura.

O outro motivo do mal-entendido é histórico. Durante décadas, inclusive dentro da medicina, os cuidados paliativos foram acionados tarde demais — quando não restava nenhuma outra opção de tratamento. Criou-se uma associação quase automática entre a palavra e os últimos dias. Essa associação está desatualizada há bastante tempo, mas sobreviveu na cabeça das pessoas. E, sendo honesta, sobreviveu também na prática de parte dos serviços de saúde.

A definição que eu uso na prática

A Organização Mundial da Saúde descreve os cuidados paliativos como a abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e famílias diante de doenças que ameaçam a vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento — com identificação precoce, avaliação criteriosa e tratamento da dor e de outros problemas físicos, psicossociais e espirituais.

Vale reparar em quatro palavras dessa definição, porque elas mudam tudo.

Prevenção. Não se trata apenas de apagar incêndios. Boa parte do trabalho é antecipar o sofrimento que costuma vir — e evitá-lo.

Precoce. Quanto antes, melhor. Não é um recurso de última hora.

Famílias. O paciente não é a única pessoa sob cuidado. Quem cuida também está na conta.

Espirituais. Não no sentido religioso necessariamente, mas no sentido de sentido: o que dá valor aos dias desta pessoa, o que ela ainda quer fazer, do que ela tem medo.

A própria OMS estima que dezenas de milhões de pessoas precisem de cuidados paliativos a cada ano no mundo, e que apenas uma pequena fração delas receba esse cuidado. A distância entre a necessidade e o acesso é enorme — e ela começa, muitas vezes, no simples desconhecimento sobre o que esse cuidado é.

Cuidado paliativo não é o oposto de tratar

O modelo antigo imaginava uma linha reta: primeiro se trata a doença com tudo o que existe; quando o tratamento falha, entram os cuidados paliativos. Um substitui o outro.

O modelo atual é outro. Os cuidados paliativos entram desde o diagnóstico de uma doença grave, convivendo com o tratamento que busca modificar a doença. No começo, ocupam um espaço menor; conforme a doença avança, ganham espaço. Em nenhum momento eles substituem o cuidado — eles somam.

Isso não é uma preferência filosófica minha. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine em 2010 acompanhou pacientes com câncer de pulmão avançado e comparou dois grupos: um recebeu apenas o tratamento oncológico habitual, outro recebeu o mesmo tratamento somado a acompanhamento paliativo desde o diagnóstico. O segundo grupo teve melhor qualidade de vida, menos sintomas depressivos, menos intervenções agressivas no fim da vida — e viveu mais tempo. É um estudo específico, com uma população específica, e não se pode generalizá-lo para toda doença. Mas ele desmontou de vez a ideia de que cuidado paliativo precoce significa encurtar a vida.

O que fazemos, concretamente

Quando digo que "há muito a fazer", as famílias costumam querer saber o que é esse muito. Na prática, o trabalho se organiza em algumas frentes.

Controle de sintomas. Dor, falta de ar, náusea, vômito, constipação, insônia, fadiga, boca seca, coceira, confusão mental. Sintomas roubam os dias de uma pessoa muito antes de a doença fazê-lo. Tratá-los bem é medicina técnica, com ajuste fino de doses e reavaliação constante.

Revisão de medicamentos. Uma pessoa com doença avançada frequentemente toma remédios que faziam sentido há cinco anos e já não fazem hoje. Retirar o que não traz mais benefício é tão cuidado quanto prescrever. Falo mais sobre isso no texto sobre prevenção de quedas em casa, porque o excesso de medicamentos é uma das causas mais subestimadas de queda no idoso.

Comunicação. Conversar com verdade sobre o que está acontecendo, no ritmo que a família consegue acompanhar. Isso inclui responder à pergunta que quase ninguém faz em voz alta — "quanto tempo?" — com a honestidade possível, que quase nunca é um número exato, e com a clareza necessária para que decisões sejam tomadas a tempo.

Planejamento antecipado. Registrar o que a pessoa quer e o que ela não quer, enquanto ela ainda pode dizer. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina reconhece as diretivas antecipadas de vontade desde 2012: o paciente pode declarar previamente quais cuidados deseja ou recusa caso perca a capacidade de se expressar, e essa manifestação deve ser respeitada pelo médico. Poucas famílias sabem disso. Quase todas se arrependem de não ter conversado antes.

Orientação para o dia a dia. Como oferecer alimento a quem engasga. Como fazer a higiene sem machucar. Quais sinais justificam ligar para o médico e quais não justificam uma corrida ao pronto-socorro às três da manhã. Esse tipo de orientação prática reduz sofrimento e reduz internação.

Apoio a quem cuida. Trato disso em detalhe no artigo sobre sinais de sobrecarga do cuidador. Adianto o essencial: a pessoa que cuida adoece em silêncio, e ignorar isso compromete o cuidado inteiro.

Cinco confusões que eu desfaço quase toda semana

"É desistir do tratamento." Não é. Em cuidados paliativos, tratamos infecções, ajustamos doses, transfundimos quando faz sentido, indicamos procedimentos que trazem conforto. A pergunta que orienta cada decisão não é "dá para fazer?", e sim "isso vai trazer mais conforto ou mais sofrimento para esta pessoa, nesta fase?".

"É só para câncer." Não é. Insuficiência cardíaca avançada, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença renal crônica, demências em estágio avançado, doenças neurológicas progressivas como esclerose lateral amiotrófica e Parkinson avançado — todas se beneficiam. No caso das demências, o cuidado paliativo costuma ser ainda mais negligenciado, embora a necessidade seja longa e intensa. Se a sua dúvida hoje é anterior a essa, sobre memória e esquecimento, escrevi um guia sobre como diferenciar esquecimento normal de sinal de alerta.

"É só no fim da vida." Não é. Existe uma área específica, chamada cuidados de fim de vida, que trata dos últimos dias e horas. Ela é parte dos cuidados paliativos, não o todo. Muitas pessoas recebem acompanhamento paliativo por anos.

"É dar morfina para apressar as coisas." Essa é a mais dolorosa de desfazer, porque costuma vir carregada de culpa. Opioides são medicamentos indicados para dor e para falta de ar, prescritos em doses ajustadas individualmente e reavaliadas com frequência. Usados dessa forma, a evidência disponível não sustenta que abreviem a vida. O que abrevia qualidade de vida — e às vezes a própria vida — é sofrimento não tratado. Em cuidados paliativos não se busca apressar nem adiar a morte.

"É coisa de hospital." Não é. Acontece em casa, em ambulatório, em hospital e em serviços dedicados. No Brasil, a Comissão Intergestores Tripartite aprovou em 2018 diretrizes para a organização dos cuidados paliativos no âmbito do SUS, como parte dos cuidados continuados integrados. A oferta ainda é desigual pelo país, mas o respaldo normativo existe.

Quando vale procurar

Não existe um exame que diga a hora certa. Existem sinais que, na minha prática, funcionam como bons indicadores de que a conversa já deveria ter começado:

  • Sintomas que não melhoram apesar dos ajustes — dor, falta de ar, náusea persistente.
  • Duas ou mais internações ou idas ao pronto-socorro em poucos meses.
  • Perda de peso significativa e perda progressiva de autonomia para atividades do dia a dia.
  • Dificuldade crescente para se alimentar, ou engasgos frequentes.
  • A família recebendo orientações diferentes de especialistas diferentes, sem ninguém coordenando o conjunto.
  • Exaustão de quem cuida.

Há também uma pergunta que nós, médicos, usamos internamente e que chamamos de pergunta surpresa: eu ficaria surpresa se esta pessoa morresse nos próximos doze meses? Quando a resposta honesta é "não ficaria", é hora de incluir o cuidado paliativo — mesmo que o tratamento da doença siga a todo vapor.

Como é a primeira consulta

Costumo dizer às famílias que a primeira consulta é mais de escuta do que de conduta. Preciso entender a história clínica, sim, mas preciso entender também quem é essa pessoa: o que ela gosta de fazer, o que já não consegue fazer e sente falta, quem mora com ela, quem decide quando ela não puder decidir, o que mais incomoda hoje.

Se for útil, três coisas ajudam muito a aproveitar o tempo da consulta: a lista completa e atualizada de todos os medicamentos em uso, incluindo os que a pessoa toma por conta própria; os relatórios e exames recentes; e, se possível, a presença de quem cuida no dia a dia — porque é essa pessoa que conhece os detalhes que não aparecem em nenhum exame.

E quase sempre saímos da primeira consulta com um plano que a família consegue executar. Não com uma lista de dez mudanças — com duas ou três, na ordem certa.

Acrescentar vida aos dias

Há uma frase atribuída a Cicely Saunders, a enfermeira, assistente social e médica britânica que fundou o movimento moderno dos cuidados paliativos, que resume melhor do que eu conseguiria: o objetivo não é acrescentar dias à vida, mas vida aos dias.

Na prática do consultório, isso costuma ser bem menos abstrato do que parece. É a senhora que voltou a dormir a noite inteira porque a dor foi controlada. É o senhor que conseguiu ir ao casamento da neta porque ajustamos a medicação e organizamos o transporte. É a família que parou de discutir no corredor do hospital porque finalmente teve uma conversa clara sobre o que estava acontecendo.

Não é pouco. É, na verdade, quase tudo o que importa.

perguntas frequentes
Cuidados paliativos significam parar o tratamento?
Não. Eles podem caminhar junto com o tratamento que busca modificar a doença, desde o diagnóstico. O que se avalia, caso a caso, é se cada intervenção traz mais conforto ou mais sofrimento naquela fase.
Só quem tem câncer precisa de cuidados paliativos?
Não. Insuficiência cardíaca, doença pulmonar e renal avançadas, demências e doenças neurológicas progressivas também se beneficiam, muitas vezes por períodos longos.
Cuidado paliativo apressa a morte?
Não. A proposta é não apressar nem adiar a morte. Medicamentos como os opioides são prescritos para aliviar dor e falta de ar, em doses individualizadas e reavaliadas com frequência.
Posso ter cuidados paliativos em casa?
Sim. O acompanhamento pode ser domiciliar, ambulatorial, hospitalar ou por teleconsulta, dependendo do caso e da necessidade.
Em que momento devo procurar?
Quando há sintomas difíceis de controlar, internações repetidas, perda de autonomia, dificuldade para se alimentar, orientações desencontradas entre especialistas, ou exaustão de quem cuida.
referências
Retrato da Dra. Máyra H C Labre Furlan
escrito por

Dra. Máyra H C Labre Furlan

CRM/PR 30.749 · RQE 25.248Especialista em Clínica Médica pela UEL, com pós-graduação em Cuidados Paliativos pela Casa do Cuidar. Especialista em Demências. Atendimento em Londrina/PR e por teleconsulta.

Conheça a médica
conversar

Tem uma dúvida sobre o cuidado de alguém da sua família?

O primeiro passo pode ser uma conversa simples, sem compromisso, para entender o que está acontecendo e o que é possível fazer.

Falar no WhatsApp
continue lendo

Artigos relacionados

Mulher idosa e sua filha adulta olhando juntas fotografias antigas de família em uma sala iluminada
demência e memória

Esquecimento normal ou sinal de alerta? Como diferenciar

Nem todo esquecimento é demência — e nem todo esquecimento é 'da idade'. Um guia prático para famílias que estão em dúvida sobre quando procurar avaliação.

11 min de leitura