Demência e Memória10 min de leitura

Agitação e agressividade na demência: por que acontecem e o que fazer

Entenda por que a agitação e a agressividade aparecem na demência, o que fazer durante uma crise e quando procurar avaliação médica.

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Pessoa idosa sentada junto à janela em um ambiente calmo, no fim da tarde

Agitação e agressividade estão entre os sintomas mais difíceis da demência — e entre os menos compreendidos. Não porque sejam raros, mas porque quase ninguém prepara a família para eles.

O diagnóstico costuma vir acompanhado de explicações sobre memória. Ninguém avisa que, um dia, a pessoa pode empurrar quem tenta ajudá-la no banho, acusar a filha de roubo, gritar com o neto ou tentar sair de casa à meia-noite dizendo que precisa ir trabalhar.

Quando isso acontece, a família se divide entre o susto e a culpa. E a pergunta que chega até mim quase sempre é a mesma: ela está fazendo isso de propósito?

Não está. E é justamente por isso que há o que fazer.

Por que a demência muda o comportamento

Chamamos esses episódios de sintomas comportamentais e psicológicos da demência. Eles incluem agitação, agressividade verbal ou física, desconfiança, delírios, perambulação, gritos, resistência aos cuidados e inversão do sono.

Não são falha de caráter nem birra. São manifestações da doença no cérebro, tão legítimas quanto o esquecimento. As áreas afetadas pela demência são as mesmas responsáveis por controlar impulsos, interpretar intenções, reconhecer contextos e regular emoções. Quando elas se comprometem, o comportamento muda — mesmo em quem foi doce e educado a vida inteira.

Há quatro razões que explicam a maior parte dos episódios:

A pessoa não consegue mais dizer o que sente. Com a linguagem comprometida, dor de dente, vontade de urinar, fome ou medo não viram frase. Viram comportamento. Grande parte da agressividade na demência é, na verdade, um pedido de ajuda mal traduzido.

O mundo ficou confuso e assustador. Imagine acordar num lugar que você não reconhece, com pessoas que dizem ser sua família, e alguém tirando sua roupa para dar banho. A reação defensiva deixa de ser estranha e passa a ser compreensível.

O julgamento e o filtro social se perderam. O que antes seria pensado em silêncio passa a ser dito ou feito.

A capacidade de tolerar estímulo diminuiu. Televisão ligada, várias pessoas falando, casa cheia, pressa — tudo isso satura rapidamente alguém com demência.

A regra de ouro: procure a causa antes do remédio

Esta é a parte mais importante do texto.

Quando a família chega ao consultório com a queixa de agitação, minha primeira pergunta nunca é "qual remédio vamos dar?". É "o que mudou?".

Agitação que começa ou piora de forma perceptível quase sempre tem um gatilho. Encontrá-lo resolve o problema com muito mais frequência — e com muito menos risco — do que qualquer medicação.

Causas físicas — as mais frequentes e as mais esquecidas

  • Dor. Artrose, dor nas costas, dente ruim, ferida, unha encravada. Pessoas com demência avançada frequentemente não relatam dor; elas se agitam. Tratar a dor resolve muitos casos.
  • Infecção urinária. Clássica, e muitas vezes sem febre nem queixa de ardência no idoso.
  • Prisão de ventre e retenção urinária. Desconforto intenso, invisível para quem observa de fora.
  • Fome, sede, calor, frio, roupa apertada.
  • Medicação nova ou dose alterada — inclusive remédios para dormir, que podem causar o efeito oposto no idoso com demência.
  • Falta de sono. Noite ruim gera dia agitado, e dia agitado gera noite pior. É um ciclo que precisa ser quebrado — trato disso no texto sobre insônia e alterações do sono na demência.

Causas sensoriais

Quem não escuta direito interpreta mal o que acontece ao redor e desconfia mais. Quem não enxerga bem confunde sombras com pessoas. Aparelho auditivo e óculos atualizados são intervenções comportamentais, ainda que não pareçam.

Causas ambientais

  • Barulho, televisão alta, muita gente ao mesmo tempo.
  • Penumbra no fim da tarde, que favorece ilusões visuais.
  • Mudança de rotina, de casa, de cuidador.
  • Ambiente desorganizado ou com excesso de informação visual.

Causas relacionais

Esta é a mais delicada, porque envolve quem cuida — e não é culpa de ninguém. Corrigir, discutir, apressar, falar de longe, abordar por trás, dar várias instruções de uma vez: tudo isso aumenta a chance de reação. Não é que a família faça algo errado; é que a doença exige um jeito diferente de se comunicar, e esse jeito ninguém ensinou.

Agitação no fim da tarde

Muitas famílias descrevem o mesmo padrão: a pessoa passa bem o dia e, por volta das quatro ou cinco da tarde, fica inquieta, quer ir embora, começa a andar de um lado para outro, discute.

É um fenômeno conhecido e comum na demência, associado à queda da luz natural, ao cansaço acumulado do dia e à desregulação do ritmo de sono e vigília.

O que costuma ajudar:

  • Acender as luzes antes de escurecer, sem esperar a penumbra.
  • Concentrar as atividades exigentes — banho, consultas, visitas — no período da manhã.
  • Reduzir estímulos no fim da tarde: menos televisão, menos gente, menos ruído.
  • Exposição à luz natural pela manhã e atividade física ao longo do dia.
  • Evitar cochilos longos no fim da tarde.

O que fazer durante uma crise

Combine isso com a família antes de precisar. No meio do episódio, ninguém lembra de nada.

1. Segurança primeiro. Afaste objetos que possam machucar, garanta que há caminho de saída para os dois e não se encurrale nem encurrale a pessoa.

2. Não discuta e não corrija. Provar que ela está errada não funciona e piora tudo. Se ela diz que precisa ir trabalhar, não explique que está aposentada há vinte anos.

3. Valide o sentimento, não o fato. "Vejo que você está aflito" funciona. "Não tem ninguém aqui, pai" não funciona. A emoção é sempre real, mesmo quando o conteúdo não é.

4. Baixe o tom e desacelere. Fale devagar, em frases curtas, uma coisa de cada vez. Aproxime-se de frente, na altura dos olhos, nunca por trás.

5. Reduza a plateia. Várias pessoas tentando ajudar ao mesmo tempo aumentam a agitação. Uma pessoa conduz; as outras se afastam.

6. Desvie a atenção. Ofereça algo concreto: um copo de água, uma música conhecida, uma caminhada até a varanda, uma tarefa simples. Mudar de ambiente costuma encerrar o episódio mais rápido do que qualquer argumento.

7. Interrompa o que estava sendo feito. Se a crise começou no banho, o banho pode esperar meia hora. Não há nada tão urgente que justifique uma luta física.

8. Saia de cena, se for seguro. Alguns minutos de distância, com supervisão à distância, resolvem muita coisa.

O que não fazer: discutir, gritar, ameaçar, imobilizar à força, testar a memória ("você não lembra que eu falei?"), rir do que foi dito ou insistir numa tarefa em curso.

O que reduz os episódios no dia a dia

Rotina previsível. Mesmos horários para acordar, comer, se higienizar e dormir. Previsibilidade reduz ansiedade, e ansiedade é a matéria-prima da agitação.

Ambiente calmo e bem iluminado. Menos ruído de fundo, menos objetos, luz adequada, espelhos cobertos se a própria imagem assusta.

Comunicação adaptada. Frases curtas. Uma instrução por vez. Perguntas de sim ou não em vez de abertas. Tempo para responder — muito mais tempo do que parece necessário.

Escolhas limitadas. "Você quer a blusa azul ou a verde?" funciona melhor que "o que você quer vestir?".

Atividade física e luz do dia. Caminhada, tarefas leves, jardim. Gasta energia, melhora o humor e organiza o sono.

Música conhecida. Canções da juventude da pessoa acessam memórias preservadas e acalmam com uma eficácia que surpreende quem nunca tentou.

Tratamento da dor. Vale repetir, porque é o ponto mais negligenciado: avaliar e tratar dor reduz agitação em uma parcela significativa dos casos.

Quando os medicamentos entram

Entram quando as medidas acima foram tentadas e não bastaram, ou quando há risco concreto à segurança da pessoa ou de outros.

Alguns princípios que sigo:

A abordagem não medicamentosa vem primeiro, e continua mesmo depois que um remédio é introduzido. Remédio não substitui rotina, ambiente e comunicação.

Antipsicóticos em pessoas idosas com demência exigem critério rigoroso. Estão associados a aumento de risco de eventos cardiovasculares, quedas e mortalidade nessa população, o que não significa que nunca devam ser usados — significa que a indicação precisa ser bem fundamentada, na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível.

Toda prescrição tem prazo de reavaliação. Medicamento iniciado numa crise não deveria durar anos sem revisão. Retirar o que já não é necessário é parte do tratamento.

Nada deve ser iniciado ou suspenso por conta própria, incluindo calmantes que sobraram de outra receita ou que funcionaram para um parente. Alguns sedativos comuns pioram a confusão e aumentam o risco de queda — assunto que detalho no roteiro de prevenção de quedas em casa.

Às vezes o melhor remédio é retirar outro. A revisão completa da lista de medicamentos é uma das intervenções mais eficazes e menos praticadas.

Quando procurar atendimento no mesmo dia

Há situações em que a agitação não é "mais um dia difícil":

  • Mudança abrupta, instalada em horas ou poucos dias, especialmente com sonolência alternando com agitação. Isso sugere um quadro agudo, como infecção ou efeito de medicação, e não a progressão da demência.
  • Febre, vômitos, queda recente ou dor intensa associados.
  • Alucinações novas ou intensificação súbita de delírios.
  • Risco concreto de agressão a si ou a outros.
  • Recusa persistente de líquidos e alimentos.

Na dúvida, avaliar é sempre melhor do que esperar passar.

Segurança em casa

Algumas medidas simples previnem os desfechos mais graves:

  • Guardar facas, ferramentas e objetos cortantes fora do alcance imediato.
  • Travas discretas em portas de saída e identificação com nome e telefone junto à pessoa, pelo risco de sair sozinha e se perder.
  • Desligar o registro do gás quando ninguém estiver supervisionando a cozinha.
  • Ter um plano combinado: quem chamar, para onde ir, quem fica com quem.

E quem cuida?

Preciso dizer isto, porque quase ninguém diz: ser agredido, ainda que verbalmente, por alguém que você ama e cuida é devastador. Provoca raiva, medo, culpa e uma solidão difícil de explicar para quem não vive aquilo.

Nada disso faz de você uma pessoa ruim, e nada disso significa que o vínculo acabou. Mas precisa ser cuidado, e não engolido. Escrevi sobre isso no texto sobre sinais de sobrecarga de quem cuida — inclusive sobre onde encontrar apoio gratuito em Londrina.

Se o cuidado está longo e difícil, vale também conhecer o que os cuidados paliativos oferecem nas demências avançadas. Eles não são só para o fim da vida, e ajudam muito em conforto, sintomas e decisões.

Como eu trabalho com isso

No meu consultório, agitação e agressividade não são tratadas como um problema de comportamento a ser suprimido, e sim como um sintoma a ser investigado.

Isso significa, na prática:

  • Escutar a descrição detalhada dos episódios — horário, gatilho, o que veio antes, o que funcionou e o que piorou. Por isso peço que a família anote, com data, antes da consulta.
  • Procurar causas físicas ativamente: dor, infecção, intestino, sono, audição, visão.
  • Revisar toda a lista de medicamentos, incluindo o que foi acrescentado recentemente e o que sobrou de prescrições antigas.
  • Orientar a família sobre ambiente, rotina e comunicação — que é onde estão os maiores ganhos.
  • Usar medicação quando necessário, com indicação clara, dose mínima e data marcada para reavaliar.
  • Cuidar de quem cuida, porque nenhum plano se sustenta sobre uma pessoa exausta.

O atendimento é presencial em Londrina/PR e por teleconsulta para todo o Brasil. Você pode ver como funciona o atendimento ou conferir as perguntas frequentes.

perguntas frequentes
Agressividade sempre aparece na demência?
Não em todos os casos, mas sintomas comportamentais são frequentes ao longo da evolução da demência, incluindo a doença de Alzheimer. A intensidade varia muito de pessoa para pessoa.
Meu pai nunca foi agressivo. Por que está assim agora?
Porque as áreas do cérebro que controlam impulsos, interpretam intenções e regulam emoções estão comprometidas. O comportamento é sintoma da doença, não uma revelação de caráter.
O que fazer quando ele acusa alguém de roubo?
Não discuta nem tente provar o contrário. Acolha a emoção ("entendo que você ficou preocupado"), ajude a procurar o objeto e desvie a atenção. Acusações desse tipo são comuns e costumam refletir a angústia de não encontrar as coisas.
Existe remédio que resolve a agitação?
Não existe solução única. Medicamentos podem ajudar em situações específicas, mas a investigação de causas e os ajustes de ambiente, rotina e comunicação resolvem boa parte dos casos — com muito menos risco.
Posso dar o calmante que sobrou de outra receita?
Não. Vários sedativos comuns pioram a confusão, aumentam o risco de queda e podem provocar o efeito contrário ao esperado em pessoas com demência.
Quando a agitação é urgência?
Quando surge de forma abrupta em horas ou poucos dias, quando vem com febre, vômito, queda ou dor intensa, quando há alucinações novas, ou quando existe risco concreto de alguém se machucar.
referências
Retrato da Dra. Máyra H C Labre Furlan
escrito por

Dra. Máyra H C Labre Furlan

CRM/PR 30.749 · RQE 25.248 — Especialista em Clínica Médica pela UEL, com pós-graduação em Cuidados Paliativos pela Casa do Cuidar. Especialista em Demências. Atendimento em Londrina/PR e por teleconsulta.

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